Lá no início dos anos 90, no tempo em que ainda se mandavam cartas e você fica ansioso toda vez que o carteiro, semanas depois, chegava para só então saber se tinha uma resposta ou não, uma amiga do (vai chamar “de”, vai para ver o que é bom) Recife foi fazer um intercâmbio em Grand Rapids.Lembro que ficava sonhando acordado, fazendo planos e imaginando como seria poder ir um dia e fazer o mesmo.Aí vem a Newsweek, diz que a cidade está morrendo, por não ter nascimentos suficiente, eles resolvem responder e a lembrança dos dias em que eu sonhava com a cidade volta a tona…
Imagino se Nathalie Giske ainda se lembra de lá…
Desventuras
Apesar do Inagaki ter indicado meu outro Blog para responder este meme acredito que este seja o local mais apropriado para fazê-lo afinal, a proposta do Blog do Roberto é justamente a de ser um Blog pessoal, ao contrário do Me Tire Deste Ócio! que, para meu desespero, está abandonado nos últimos dias. Além disso, aproveito para ressucitar este meu canto que há tempos não visito. Canto este que nunca teve a pretensão de ser famoso ou até mesmo periódico mas que, creiam-me, apesar do pseudo-abandono, é tratado com carinho.
Lero-lero a parte, vamos ao que interessa, não é?
1. Estou em uma eterna luta contra a balança
Quem me conhece pessoalmente deve achar difícil acreditar mas é a mais pura das verdades: Desde que me entendo por gente travo uma luta quase diária contra a bendita balança. O catch aqui é que não se trata de perder peso mas sim de ganhar – ou pelo menos mantê-lo. Com 18 anos cheguei a pesar 52 quilos com 1,74 metros de altura. Eu era magro. Muito magro. Tanto que meu pai insistia em me chamar de macarrão 18 por causa da finura do meu pulso. O quadro só melhorou um pouco quando fui morar em Israel onde cheguei a aumentar 10 quilos com tanta comida e trabalho físico que havia por lá. Com isso ganhei massa nos músculos e não somente gordura. Hoje em dia tento não baixar dos 70 quilos (coisa difícil, acreditem) enquanto faço de tudo para chegar ao que considero meu peso ideal: 75. Para minha sorte desenvolvi uma técnica infalível de assalto a geladeira durante a madrugada…
2. Fui alfabetizado 1º em inglês
Mesmo só tendo colocado um pé em um país de língua inglesa décadas depois, 1º aprendi a escrever cat para só depois chegar até o gato. Acontece que quando pequeno, logo após o jardim de infância, meus pais se esforçaram e me matricularam em uma escola americana aqui em Salvador onde todas as aulas, inclusive as de português, eram em inglês. Deu no que deu.
O grande problema disso é que acabei ficando com um sotaque estranho, sem muita definição. Afinal de contas, nosso sotaque nada mais é do que a forma como os músculos da nossa mandíbula se acostumaram a se movimentar (ou ao menos foi isso o que uma amiga fonoaudióloga me explicou tempos atrás) justamente quando estamos na fase de desenvolvimento do nosso vocabulário, ou seja: na alfabetização. Como eu passava a maior parte do dia ouvindo e falando inglês, o resultado foi este meu sotaque que deixa muita gente cabreira. Claro que morar 8 anos fora do país não ajudou muito depois disso mas aí já é outra história…
Hoje em dia, falo fluentemente 4 línguas e consigo ler (ou ao menos entender o sentido geral do texto) em outras 2. Além do português sou fluente em inglês, espanhol (castellano, en verdad. Aprendí con porteños, que voy hacer? Nadié es perfecto, no?) e hebraico. Pois é. hebraico. Consigo entender com muita paciência textos em francês, italiano e até alemão mas não ouso falar nenhum dos 2.
3. Durmo tarde. Muito tarde
Não importa o quão cansado eu esteja meu dia não acaba antes das 2:30, 3 da matina. Desde pequeno sempre adorei a ficar acordado a noite. A melhor coisa para mim era quando meus pais saiam de casa com amigos para algum jantar ou festa e eu sabia que teria a casa toda – a.k.a. a televisão e o armário de balas, doces e chocolates – só para mim. Era uma farra solitária (deixe de ser cabeça suja!) sem igual.
Minha artimanha era tanta que eu chegava a combinar com o porteiro noturno para que ele me interfonasse assim que meus pais entrassem na garagem. Eu então corria para o elevador apertava vários botões para que demorassem ainda mais de subir. Era o tempo que eu tinha (cerca de 4 a 5 minutos) para arrumar a bagunça e correr para a cama fingindo que estava dormindo quando eles chegavam. Na maior cara-de-pau, levantava com cara de sono dizendo que me acordaram e que ia beber água na cozinha. Só depois finalmente ia para a cama tentar dormir.
Não sei se por causa deste tempo ou pelos problemas que insistem em bombardear minha cabeça justamente quando a deito no travesseiro. Débitos, discussões com a namorada, ideias milagrosas de como ganhar dinheiro, viagens maionésicas sobre o que eu faria se eu ganhasse na Mega Sena ou por que o céu é azul (sim. Eu sei que é por causa da refração da luz do sol na atmosfera ou coisa parecida..).
Esta minha insônia tem uma certa vantagem no entanto: Afinal, além de poder adiantar meu trabalho tranquilo sem quase nenhuma janelinha do msn subindo qualquer insône sabe bem que os melhores filmes da Tv passam no corujão da madrugada.
4. Sou oficial do exército
Da reserva, é claro. Mas, para “piorar” as coisas, não do exército brasileiro. Como mencionei antes morei ao todo por 8 anos em Israel e destes pouco mais de 4 anos foram vestindo verde oliva todos os dias. Não interessa aqui o que fiz ou deixei de fazer por lá. Só posso dizer que tenho a minha consciência limpa e que hoje em dia posso rir – e também chorar – de muitas das situações pelas quais passei.
Em uma destas, quando estávamos em operação em território inimigo e só podíamos voltar para casa uma vez por mês, um dos meus soldados veio falar comigo. Nunca esqueço o olhar dele quando veio me pedir para trocar o dia da folga pois a dele caia justamente na época em que a namorada estava menstruada. O problema todo era que estávamos realmente sem pessoal. Resultado: Eu cobri a folga dele e por alguns dias servi como soldado raso em todas as obrigações como tal, de vigia à auxiliar plantonista de cozinha (pois é. Lavando prato. Não preciso falar mais nada sobre isso não é?), passando por “responsável pela fossa da unidade”.

O tal garoto (soldado) voltou da folga outra pessoa, claro. E em pouco tempo toda a unidade passou a entender por que eu o estava substituindo, mesmo sendo oficial, e sabia da história toda. Dizem que até hoje esta história ainda é comentada pelas bandas de lá como uma das lendas da unidade.
5. Já fiz 2 “cirurgias”
As lembranças da época do exército são as mais diversas possíveis. O que posso dizer é que não tenho como deixar de concordar com o poeta Cazuza quando ele diz que viu a cara da morte e ela estava viva. Ainda que tenho boas lembranças daquele tempo, de vez em nunca ainda acordo suando frio de madrugada ou tentando gritar algo. Nada muito agradável para quem dorme comigo eu imagino, e faço de tudo para esquecer disso no dia-a-dia. Ainda assim, como também já disse aqui, não me arrependo em momento algum do que fiz ou deixei de fazer. Literalmente já salvei dezenas de vidas e isso não tem preço.
E é justamente aqui que explico as aspas em “cirurgias”. O lance é que não fui eu o operado mas sim o que operou!
Para começar uma pergunta: Quem disse que a televisão não ensina nada?
Certa vez em um treinamento de combate em áreas urbanas um sujeito não muito esperto atirou uma granada de fragmentação ao invés de uma de uma de efeito moral. O resultado foi gente correndo e gritando para tudo quanto é lado tentando sair da frente. Por sorte o cara acertou o alvo, ou seja, jogou a maldita granada dentro de um quarto onde só haviam alvos de papelão. O resultado poderia ter sido pior… bem pior..
O problema todo foi que um dos estilhaços da granada ricocheteou no vão da porta e acabou atingindo justamente nosso paramédico no pescoço. Este estilhaço cortou e cauterizou (cada estilhaço deste é lançado a uma velocidade incrível e literalmente em brasa) sua faringe logo abaixo do queixo cortando a entrada de oxigênio nos pulmões. Quem já fez algum curso de primeiros socorros sabe bem que tudo começa justamente com o ABC- A (Airways: entradas de ar), B (Breathing: respiração) e C (circulation: circulação) – e quando o vi ali na mesma hora baixou o espírito de MacGyver baixou em mim, tomei uma das decisões mais difíceis da vida e resolvi descobrir se Hollywood tinha razão ou não. Peguei álcool, luvas de latex e o bisturi do kit de primeiros socorros, mandei tirarem a carga de uma caneta e esterelizarem da melhor forma possível, respirei fundo, rezei para não ter confundido a ordem do que havia aprendido nos cursos sobre traqueostomia e furei a garganta do cara.
Para encurtar a história, o sujeito está vivo e bem até hoje. Tem um calo que o deixou rouco para o resto da vida mas nada que possa atrapalhar. Ao contrário. Anos depois ele me disse que as garotas adoravam quando ele falava com elas…
Já 2ª “operação” lembro como se fosse hoje. Estava em missão de patrulha e vimos um carro (carro aqui seria um elogio. O calhambeque estava em uma situação totalmente deplorável.) que um dia foi azul correndo a toda na estrada. Em questão de segundos o motorista perdeu o controle, saiu da estrada e caiu em uma vala. Imaginem só a situação de stress, afinal por uma semana seguida ouvíamos todos os dias na instrução matutina que haviam sérias possibilidades de terroristas estarem planejando uma ataque com carro bomba de cor… isso mesmo: Azul.
Seguimos todo o protocolo mas antes mesmo que chegássemos perto logo vimos 2 crianças correndo em nossa direção pedindo por socorro. O motorista já saiu do carro só de cueca para provar que não estava armado ou que tinha algum tipo de explosivo no corpo gritando que a mulher dele estava no carro e precisava ir para um hospital urgente pois estava dando a luz. O resto foram os minutos mais maravilhosos da minha vida. Não lembro de ter tido um atitude tão centrada quanto aquela tarde.
Mandei meus soldados abrirem a maca que sempre tínhamos conosco, trazer o Kit de primeiros socorros, avisei no rádio o que estava acontecendo e ali mesmo, sob o sol escaldante do deserto – adoro escrever isso, por mais piegas que possa soar – ajudei a senhora Fátma T’weaq a dar a luz ao seu 3º bebê. No rádio só se ouvia todo o batalhão perguntando qual era o sexo do garoto. Era um menino. Tufic Rubirto (O mais próximo que conseguiram dizer de Roberto) T’weaq.
6. Meu 1º beijo foi aos 5 (ou teria sido aos 6?) anos de idade
Morávamos ainda no bairro da Barra aqui em Salvador em um edifício de 4 andares, sem elevador e não lembro mais quantos apartamentos por cada andar. Não haviam muitas crianças no prédio e meus jogos e brincadeiras ou eram no Yatch Clube – que ficava há poucos metros de onde morava – ou com as vizinhas do apartamento ao lado. Eram 2 irmãs, Luana, a mais velha e Tâmara. Tínhamos quase a mesma idade e ainda nossos jogos se resumiam a picula (pega-pega ou pique a depender de onde você more) ou criar aventuras em que meu Falcon precisava salvar as Barbie’s delas dos mais terríveis inimigos imaginários.
A boa vizinhança era tanta que as portas dos apartamentos ficavam sempre abertas e um era praticamente uma extensão do outro de onde entrávamos e saíamos sem pedir licença. Tipo de coisa que não tenho mais hoje em dia.
Um início de noite, nas raras vezes em que não éramos obrigados a ir dormir assim que o Jornal Nacional (que na época começava exatamente as 8 da noite e os cabelos de Cid Moreira não eram tão brancos – ou eram?) acabava, eu e as meninas assistimos uma cena de beijo na novela e a mais velha me perguntou se queria fazer igual. Nos “escondemos” atrás da cortina da casa dela e ali rolou meu 1º beijo. Logo em seguida a mais nova quis experimentar também e, como um bom cavalheiro que sou (do tipo que ainda abre a porta do carro ou manda presentes sem motivo para a namorada mesmo depois de mais de 2 anos juntos) não pude recusar.
Anos mais tarde eu daria o meu último primeiro beijo. Um beijo delicioso (e lascivo até) que já estava mais ou menos certo que aconteceria depois de meses de bate papo pelo msn e celular. Aconteceu como eu gosto: numa sala de cinema assistindo em teoria (não me perguntem muito mais sobre o filme. Não saberia dizer.) A Lenda do Tesouro Perdido com Nicolas Cage, por volta das 7 da noite (a sessão havia começado as 18:35) no dia 23 de janeiro de 2008. Só nos encontraríamos de novo depois do carnaval e antes que me fiquem imaginando o que aprontei durante este tempo, passei o tempo todo pensando nela, ao ponto de ligar as 3 da manhã de um camarote para conversarmos ao invés de ficar peruando na avenida. Fomos mais uma vez para ir ao cinema tentar assistir Sweeney Todd (com Johnny Depp). Outro filme que me deixou na mesma situação que o 1ª, sem lembrar de nada.
Como tenho tanta certeza? Simples: Guardo até hoje os canhotos do ingressos comigo.

7. Fui o mais novo passageiro desacompanhado a viajar de avião no Brasil
Taí algo que poderia entrar para algum livro dos recordes ou coisa parecida mas, pelo que eu sei, o único registro oficial desta minha aventura se perdeu no incêndio que houve no jornal a tarde daqui de Salvador.
Eu tinha um pouco mais de um ano de idade quando meus pais resolveram viajar para o Rio de Janeiro mas precisavam levar o carro. Para que? Não me perguntem. Realmente não sei .
O plano original, claro, não era que eu viajasse sozinho. A princípio deveria embarcar no mesmo vôo vindo dos Estados Unidos em que minha tia estaria e faria escala aqui em Salvador. Acontece que ela perdeu a conexão na terra do Tio Sam e deu no que deu.
Como a passagem já estava comprada o jeito foi embarcar. Segundo minha avó que enquanto viva fazia questão de sempre lembrar desta história, fui a sensação do vôo e todas as comissárias de bordo (naquele tempo ainda se chamavam aeromoças) brigavam para ver quem cuidaria de mim. Fui tratado de tal forma que quando cheguei no Rio me recusava a sair do colo do piloto que foi pessoalmente me entregar à minha ela que aguardava Galeão.
Uma pena (para mim, claro) que na época a Varig não soubesse aproveitar esta oportunidade em alguma campanha de marketing; quem sabe não me dariam passagens de graça pelo resto da vida ou algo assim?
8. Queria que meus pais se separassem
Sei que não é algo simples de se dizer mas não deixa de ser verdade.
Mesmo tendo uma infância feliz o relacionamento de meus pais sempre foi do tipo “entre tapas e beijos” mas sem a parte física (no que se refere aos tapas, claro) e as brigas e discussões entre eles eram algo rotineiro e nada cômodas para um garoto com 7 ou 8 anos de idade.
Para completar eu tinha uma baita inveja dos meus amiguinhos cujos pais eram separados e eram hiper paparicados por um ou por outro, sempre com os melhores brinquedos e os melhores programas (principalmente quando saíamos com o pai que fazia de tudo para agradar aos filhos e, consequentemente, seus amigos). Além disso, achava o máximo quando pedia o número de telefone de algum deles (os amiguinhos não os pais) e a resposta era sempre a mesma: “Este é o número da casa de minha mãe e este aqui da casa de meu pai”. Diferente de hoje em dia onde cada um tem mais de um celular além do telefone de casa, ter 2 números era algo que realmente impressionava na cabeça de um garoto.
Claro que o fato da garota mais linda da escola também ter pais separados influenciava e muito este meu desejo bizarro.
9. Já fiz parte de um grupo de dança
Apesar do que eu disse no item anterior uma coisa não há como negar: Quando meus pais entravam em uma pista de dança parecia aquelas cenas de filmes com Fred Astaire e Ginger Roges em que os demais dançarinos simplesmente saíam da pista humilhados pela performance dos 2. Não conheci ninguém que chegasse aos seus pés-de-valsa.
Isso sempre me fez gostar muito, mas muito mesmo de dançar e não raro ligava o som de casa quando pequeno, colocava na radiola os discos que meus pais adoravam ouvir como Nat King Cole, Tony Bennet, Johnny Mathis, Glenn Miller, Sinatra e (por que não) Julio Iglesias e ficava treinando meus passos.
Lá pelos idos de mil novecentos e olimpíadas de Los Angeles comecei a participar de um movimento juvenil judaico aqui em Salvador. Algo como um “grupo de jovens”. Éramos menos de 20 garotos e garotas com idades entre 9 e 15 anos que se apoderou de um banheiro quebrado e desocupado no antigo clube da Hebraica aqui em Salvador para servir como sede e se encontrava uma vez por semana para as mais diversas atividades e jogos.
Como forma de arrecadar dinheiro organizávamos festas e Bingos na comunidade e fazíamos pequenas apresentações de danças típicas israelis para o orgulho dos pais ali presentes.
Com o tempo estas apresentações acabaram se tornando parte de todo e qualquer evento realizado pela comunidade e chegamos ao ponto máximo de nos apresentarmos na Feira das Nações organizada pelos Women’s Club aqui em Salvador.

Meu ponto alto me apresentando, no entanto, foi em um festival de dança em Israel. Em 1993 ganhei uma bolsa para passar um ano estudando educação não formal por lá. Este curso era divido em 3 partes sendo as 2 primeiras em 2 kibutzim (Isso mesmo. O plural de kibutz é kibutzim) e a última em uma campus em Jerusalém. Como forma de agradecer pela hospitalidade dos kibutzim que nos acolheram criamos uma coreografia para nos apresentarmos em uma festa de despedida. O sucesso foi tão grande que o vídeo chegou até o organizador do tal festival e fomos convidados a nos apresentar, desta vez no anfiteatro ao ar livre da Universidade Hebraica de Jerusalém para uma platéia de milhares de pessoas.
Depois disso, nunca mais me apresentei em lugar algum mas ainda me lembro de alguns dos passos das danças mais tradicionais.
Post Scriptum: Levei semanas para conseguir decidir o que colocar ou não aqui além de uma situação complicada no trabalho que não me ajudou muito. Ainda assim, apesar de algumas dessas histórias parecerem “incríveis demais”, posso garantir que todas são verdadeiras e existem muito mais de onde estas vieram. Já cheguei a pensar em coloca-las em um livro (ou Blog) mas acredito que ainda falta um pouco para que possa pensar em uma auto-biografia.
Para continuar a brincadeira eu indico Ladyrasta, Jorge, Marcio Melo, Caio, Natália, Dmitry, Danilo, Sampson e Yamazaki.
- Conte aos amigos
- Comeu o que?
- O frango.- Mas eu fiz carne. Por que não comeu a carne.
- Porque você não gosta de frango e deixei a carne para você.
- Algum problema com a carne? Não dá mais prazer nenhum fazer nada para você!
- Mãe. Quer, por favor diminuir o volume da sua Tv?
- Eu só consigo dormir com a televisão ligada.
- Sim, eu sei, mas tá alto demais. Não consigo dormir.
- Problema seu.
- Bom. Já que não posso dormir mesmo vou trabalhar um pouco no computador.(20 minutos depois).
- Dá para parar de ficar teclando que eu preciso dormir e não consigo com este barulho?
- Você fica o dia inteiro neste computador e não ajuda em nada!
- Mãe. Este é o meu trabalho. Eu ganho para escrever.
- Mas precisa ficar o dia todo só sentado? Por que não sai para arranjar um emprego?
- (murmúrios)
- Não estou te ouvindo. O barulho da máquina de lavar não deixa. Espera um minuto que já vou aí.
- Sim? E agora? Vai poder fazer o que te pedi ou não?
- Eu disse que estava na área de serviço com a máquina de lavar do lado ligada e não ouvi o que você disse. Dá para repetir, por favor?
- Você só ouve o que te interessa. Agora não preciso mais.
- … vou te explicar de novo. O computador está atualizando o programa. Precisa esperar até que ele termine para poder usar.
- E eu com isso? Eu quero usar agora. Não posso esperar!
- Infelizmente não tem jeito. Vai ter que esperar até que ele termine.
- Você só faz as coisas quando te interessam, não é? Quando eu preciso não ajuda em nada.
- Mas que culpa eu tenho do programa precisar atualizar?
- Não sei. Mas de alguma forma isso tem a ver com você.
- Vai sair hoje?
- Não pretendo.
- Então passe na casa de sua tia para pegar a encomenda que ela deixou na portaria do prédio dela mas volte logo pois tenho consulta marcada no médico.
- Mas eu acabei de te dizer que não pretendo sair.
- Sim, e daí? Você quer que eu faça tudo, é?
- Conte aos amigos
Plena terça-feira pré-carnaval e este que vos escreve tinha acabado de terminar um serviço mostrando as maravilhas da cidade para um casal de turistas – um indiano e o outro (Sim. O outro. Fazer o que? Eu não tenho preconceitos) bem interessados em nossa cidade.
Como haviam me pedido, ao invés de terminar o tour no porto onde embarcariam de volta no baita navio em que estavam, deixei-os em um restaurante na cidade.
Mesmo assim, ainda precisava prestar contas com o patrão, informar como havia sido o trabalho, entregar a ficha que os turistas preenchem contando como havia desempenhado minha função de Guia de Turismo e assim voltei ao terminal de passageiros no Porto de Salvador.
Entro, converso, papo-vai-papo-vem enquanto aproveitava para curtir o ar-condicionado depois de passar horas descendo e subindo as ladeiras do Pelourinho. O chefe me pede para continuarmos a conversa do lado fora já que precisava aguardar os outros ônibus que deveriam chegar por volta daquele horário. Deviam ser umas 2 e pouco da tarde.
Ficamos na porta de entrada – eu estrategicamente posicionado de forma que pudesse aproveitar os resquícios de tão desejado ar condicionado quando percebo uma certa muvuca no noutro lado da rua.
Um baita de um afro-descendentezão estava sendo algemado enquanto uns 3 ou 4 policiais o rodeavam. Como ainda não descobriram no mundo algo que supere uma fofoca em velocidade, menos de 1/2 segundo depois já sabia o que estava acontecendo.
O sujeito, ao que indica, estava sendo preso por dirigir sem habilitação. Segundo o próprio – a esta altura nem precisávamos mais do telefone sem fio para saber o que estava acontecendo, o próprio “meliante” já estava berrando para quem quisesse ouvir que – era um cara honesto, trabalhador que tinha esquecido a carteira de motorista em casa e não merecia ser tratado desta forma.
Este tipo de coisa, pelo jeito, era motivo suficiente para um sujeito levar a 2ª bordoada – segundo informações ele já havia levado um chute antes – de um tipo que, pelo jeito, se achava o próprio Capitão Nascimento.
Peraí! Há apenas algumas poucas horas atrás eu tinha acabado de abraçar e beijar uma grande amiga que também é policial e comentado com ela que pouco antes, tinha mostrado à alguns guardas municipais um sujeito que tinha me oferecido um papelote na frente dos meus clientes – o indiano era delegado em Goa, a propósito – não podia acreditar que estes “puliças” – isso mesmo. Com u e cêcedilha – estivessem batendo em um cara grande mas devidamente algemado e que não havia feito nada além de gritar os seus direitos para chamar a atenção do absurdo que já estava acontecendo na frente de literalmente centenas de turistas que desciam felizes da vida dos ônibus depois de um passeio pela cidade.
Como estava no outro lado da rua, dentro da grade de proteção do terminal marítimo, devidamente identificado com uniforme da empresa e meu crachá de Guia de Turismo expedido pelo Ministério do Turismo – Hello! Órgão federal! – devidamente pendurado no pescoço e depois de ter mencionado – talvez pudesse ajudar em algo – que ele não estava falando com um reles trabalhador honesto qualquer, mas sim com um oficial da reserva, puxei a única arma que eu tinha naquele momento,meu bom e velho celular e comecei a filmar todo o escarcéu a céu aberto.
Tudo ia bem – para mim, não para o cara que continuava apanhando – até que o tal ante-projeto-de-zero-dois – até boina preta ele tinha – me viu, falou algo para o colega e veio em minha direção.
Como estava fiquei, afinal, quem estava errado ali, com certeza não era eu.
Mas chegou foi logo perguntando o que é que eu estava fazendo e quando antes mesmo que eu tivesse chances de responder ele já estava levantando a grade e entrando.
Já em cima de mim, me disse que eu não podia filmar pois aquilo era um “procedimento policial padrão” e eu estava infringindo a lei. Quando rebati dizendo que estava em meu direito ele levantou a mão – sim, o cara era bem maior que eu, além de estar devidamente armado e com os companheiros dele observando o que estava acontecendo – indicando que eu seria o próximo a receber o tal “procedimento padrão” mas quando viu que todo mundo também observava, pelo jeito, levou a mão à cartucheira e puxou um par de algemas ao mesmo tempo que me dizia que a “única solução” seria apagar o vídeo.
Posso ser honesto, até ingênuo demais as vezes, mas idiota e burro são qualidades que não fazem parte do meu currículo, tenham certeza.
Não pensei 2 vezes e apaguei o bendito filme na hora e mostrei ao tal puliça.
Absurdo?
Pois é.
Mas enquanto obedecia as ordens da autoridade policial, não conseguia tirar da cabeça as cenas finais do filme Ônibus 174 e o dito cujo não parava de piscar.
Afinal já diz o ditado:
Quem tem, tem medo.
O “legal” da história foi depois de tudo terminado, ele ter virado de volta querendo apertar minha mão dizendo: “Você como oficial bem sabe como estas coisas são, não é? Procedimento padrão”.
Padrão o caralho, deu vontade de gritar, mas o meu dito-cujo-piscador – mais uma vez ele - me aconselhou a deixar para outro dia.
O coitado que tinha apanhado?
Este foi levado na mala do carro do que – ao que parecia pela quantidade de estrelas que tinha no ombro – o manda-chuva da corporação.
- Conte aos amigos
