Plena terça-feira pré-carnaval e este que vos escreve tinha acabado de terminar um serviço mostrando as maravilhas da cidade para um casal de turistas – um indiano e o outro (Sim. O outro. Fazer o que? Eu não tenho preconceitos) bem interessados em nossa cidade.
Como haviam me pedido, ao invés de terminar o tour no porto onde embarcariam de volta no baita navio em que estavam, deixei-os em um restaurante na cidade.
Mesmo assim, ainda precisava prestar contas com o patrão, informar como havia sido o trabalho, entregar a ficha que os turistas preenchem contando como havia desempenhado minha função de Guia de Turismo e assim voltei ao terminal de passageiros no Porto de Salvador.
Entro, converso, papo-vai-papo-vem enquanto aproveitava para curtir o ar-condicionado depois de passar horas descendo e subindo as ladeiras do Pelourinho. O chefe me pede para continuarmos a conversa do lado fora já que precisava aguardar os outros ônibus que deveriam chegar por volta daquele horário. Deviam ser umas 2 e pouco da tarde.
Ficamos na porta de entrada – eu estrategicamente posicionado de forma que pudesse aproveitar os resquícios de tão desejado ar condicionado quando percebo uma certa muvuca no noutro lado da rua.
Um baita de um afro-descendentezão estava sendo algemado enquanto uns 3 ou 4 policiais o rodeavam. Como ainda não descobriram no mundo algo que supere uma fofoca em velocidade, menos de 1/2 segundo depois já sabia o que estava acontecendo.
O sujeito, ao que indica, estava sendo preso por dirigir sem habilitação. Segundo o próprio – a esta altura nem precisávamos mais do telefone sem fio para saber o que estava acontecendo, o próprio “meliante” já estava berrando para quem quisesse ouvir que – era um cara honesto, trabalhador que tinha esquecido a carteira de motorista em casa e não merecia ser tratado desta forma.
Este tipo de coisa, pelo jeito, era motivo suficiente para um sujeito levar a 2ª bordoada – segundo informações ele já havia levado um chute antes – de um tipo que, pelo jeito, se achava o próprio Capitão Nascimento.
Peraí! Há apenas algumas poucas horas atrás eu tinha acabado de abraçar e beijar uma grande amiga que também é policial e comentado com ela que pouco antes, tinha mostrado à alguns guardas municipais um sujeito que tinha me oferecido um papelote na frente dos meus clientes – o indiano era delegado em Goa, a propósito – não podia acreditar que estes “puliças” – isso mesmo. Com u e cêcedilha – estivessem batendo em um cara grande mas devidamente algemado e que não havia feito nada além de gritar os seus direitos para chamar a atenção do absurdo que já estava acontecendo na frente de literalmente centenas de turistas que desciam felizes da vida dos ônibus depois de um passeio pela cidade.
Como estava no outro lado da rua, dentro da grade de proteção do terminal marítimo, devidamente identificado com uniforme da empresa e meu crachá de Guia de Turismo expedido pelo Ministério do Turismo – Hello! Órgão federal! – devidamente pendurado no pescoço e depois de ter mencionado – talvez pudesse ajudar em algo – que ele não estava falando com um reles trabalhador honesto qualquer, mas sim com um oficial da reserva, puxei a única arma que eu tinha naquele momento,meu bom e velho celular e comecei a filmar todo o escarcéu a céu aberto.
Tudo ia bem – para mim, não para o cara que continuava apanhando – até que o tal ante-projeto-de-zero-dois – até boina preta ele tinha – me viu, falou algo para o colega e veio em minha direção.
Como estava fiquei, afinal, quem estava errado ali, com certeza não era eu.
Mas chegou foi logo perguntando o que é que eu estava fazendo e quando antes mesmo que eu tivesse chances de responder ele já estava levantando a grade e entrando.
Já em cima de mim, me disse que eu não podia filmar pois aquilo era um “procedimento policial padrão” e eu estava infringindo a lei. Quando rebati dizendo que estava em meu direito ele levantou a mão – sim, o cara era bem maior que eu, além de estar devidamente armado e com os companheiros dele observando o que estava acontecendo – indicando que eu seria o próximo a receber o tal “procedimento padrão” mas quando viu que todo mundo também observava, pelo jeito, levou a mão à cartucheira e puxou um par de algemas ao mesmo tempo que me dizia que a “única solução” seria apagar o vídeo.
Posso ser honesto, até ingênuo demais as vezes, mas idiota e burro são qualidades que não fazem parte do meu currículo, tenham certeza.
Não pensei 2 vezes e apaguei o bendito filme na hora e mostrei ao tal puliça.
Absurdo?
Pois é.
Mas enquanto obedecia as ordens da autoridade policial, não conseguia tirar da cabeça as cenas finais do filme Ônibus 174 e o dito cujo não parava de piscar.
Afinal já diz o ditado:
Quem tem, tem medo.
O “legal” da história foi depois de tudo terminado, ele ter virado de volta querendo apertar minha mão dizendo: “Você como oficial bem sabe como estas coisas são, não é? Procedimento padrão”.
Padrão o caralho, deu vontade de gritar, mas o meu dito-cujo-piscador – mais uma vez ele - me aconselhou a deixar para outro dia.
O coitado que tinha apanhado?
Este foi levado na mala do carro do que – ao que parecia pela quantidade de estrelas que tinha no ombro – o manda-chuva da corporação.
